Há exatos três anos, no dia 22 de junho de 2015, eu desembarcava em Florianópolis, possuindo como única companheira a minha mudança, cheia de recordações do filho, da família e dos amigos que havia deixado em Santa Maria. Apesar disso, no meu olhar já saudoso, existia muita coragem e a convicção de ter feito a melhor escolha para o momento. Recém formada em Terapia Ocupacional, consegui um bom emprego no estado vizinho, meu filho estava com 19 anos e estava decidido que era tempo de cuidar de mim e dos meus projetos de vida.

A adaptação foi rápida, os colegas de trabalho e meus chefes foram bastante receptivos, e me acolheram com carinho. Desta forma, se transformaram na minha segunda família, assim como todas as pessoas que fui conhecendo ao longo do tempo. Para amenizar a saudade do filho, eu viajava uma vez por mês para Santa Maria, para estar apenas três dias com ele. Passava tão rápido, e a viagem de volta para Santa Catarina era sempre movida a muitas lágrimas, contudo, a minha vida, a minha profissão e os meus pacientes me esperavam. Assim, eu seguia tranquila, sabendo que meu filho já estava bem cuidado, junto com minha mãe, e se encaminhando na vida, e que eu já poderia pensar um pouco mais em mim.

Oito meses depois, conheci uma pessoa, a qual balançou as estruturas desta mulher que estava se curtindo, feliz, realizada na profissão, e muito bem sozinha. Foi um sentimento que se construiu rápido, intenso e recíproco. A partir daí, comecei a viver mais intensamente a vida, junto com ele. Descobri que a felicidade existe, acompanhada também. Namoramos dez meses, terminamos o namoro e ficamos um mês afastados, e quando voltamos a namorar, logo nos casamos, no civil. Ele me pediu em casamento no trapiche da beira mar, da Ponta de Baixo, um lugar maravilhosamente encantador.

Dois meses depois de casados, aquela velha frase de que as coisas começaram a mudar, e realmente mudaram. Nosso relacionamento se tornou extremamente abusivo por parte dele, e a minha vida se transformou de novo, mas desta vez num pesadelo constante e perigoso.

Não existiram agressões físicas, mas posso garantir que um tapa doeria menos do que acusações descabidas e desprovidas de qualquer respeito pela esposa que estava diante dele. Sim, eu me casei com um psicopata, com um homem completamente isento de sentimentos, principalmente empatia. A dona de si, passou a ter dono. SIM, é isso mesmo! Era isso o que ele queria, e isso aconteceu por sete meses, que foi o tempo que o meu casamento durou. Segundo ele, eu tinha amantes, sendo eles meus colegas do trabalho, meus amigos, meus vizinhos, o dono da padaria da esquina, enfim…bastava ser homem para ser meu amante. Não, eu não podia fazer nada sem ele, com exceção de trabalhar, e mesmo assim no intervalo eu não podia descansar, visto que eu precisava ficar com ele no telefone. Certo dia, lembrei que precisava ir na lotérica, no shopping ao lado do trabalho, pois era boleto de concurso que vencia naquele dia. Realmente era do lado, eu me atrasaria uns 20 minutos no máximo, então pensei que não precisava avisar. Ele me ligou, pediu para falar com a atendente, para ter certeza que eu estava mesmo na lotérica. Não fiz isso, com certeza, mas precisei tirar foto do local. Corri para casa, e quando cheguei em casa, furiosa, fui para o banho, e ainda precisei escutar que eu não estava com a mesma calcinha que eu havia colocado quando fui trabalhar.

Quando eu vinha para Santa Maria visitar meu filho, era briga constante, antes e depois da viagem. Aqui na cidade, eu não dormia. Ele não deixava! Se eu dormisse era mentira para ele, era desculpa para estar com outro. Comer, tomar banho e fazer qualquer outra coisa era só com celular na mão. É, eu aprendi a tomar banho sem molhar o celular dentro do box. Minha mãe, certa vez, observando o estado deplorável de cansaço que eu me encontrava, pegou o telefone da minha mão e falou com ele. Pediu para que me deixasse dormir, que me deixasse aproveitar o final de semana com meu filho, que me deixasse ficar longe do celular, pois era desumano o que ele fazia comigo. Na doença dele, no auge da loucura, falou para a própria sogra, que ela me acobertava aqui com meus amantes.

Diante dessas e de tantas outras questões impossíveis de escrever aqui, pois posso escrever um livro, decidi me separar. Antes disso, registrei dois boletins de ocorrência contra ele, por danos psicológicos, um em Santa Maria e outro em Florianópolis. Neste meio tempo ele foi internado no IPQ ( Instituto de Psiquiatria do Estado de Santa Catarina),por uso abusivo de cocaína. Sim, ele usava cocaína ,e só descobri depois de dois meses de casada. O que era um uso controlado, para se manter acordado à noite, já que ele era DJ, se tornou desenfreado, sem limites, e segundo ele (usuário sempre coloca a culpa em alguém, não nele mesmo) causado pelas minhas viagens para Santa Maria e por ele não confiar em mim. Tendo em vista esta situação, tirei meu marido da minha casa, sob muitos protestos dele, que a partir dali, teve convicção de que eu tinha outro. Paciência, eu já não tinha vários? Logo depois, dias antes do Natal, vim de férias para a cidade e fiquei um mês. Na volta, final de janeiro, ele começou a me perseguir, até freqüentava meu apartamento às vezes, mandava flores para o meu trabalho, me dava presentes, porém, quando eu não deixava ele ir, invadia o prédio, e isso tudo começou a se tornar perigoso. As ameaças começaram, inclusive quando eu estava dentro do carro dele, depois de me dar uma carona para o mercado. Neste dia, ele ameaçou jogar o carro da ponte de Florianópolis comigo dentro, se eu não voltasse para ele. Foi ai que tomei a decisão mais difícil da minha vida. Eu queria viver, e voltar a pertencer a mim mesma.

No outro dia, sob protestos e tristeza dos meus colegas e dos meus chefes, pedi demissão do emprego que eu tanto amava. Foi um processo doloroso para todos, mas foi necessário. Mais uma vez a minha vida estava mudando, e desta vez eu estava voltando para junto dos meus. Pedi demissão, coloquei uma pessoa de extrema confiança no meu lugar ( pedido delegado pelo meu chefe), entreguei as chaves do apartamento, me despedi do mar, dos amigos, dos colegas, dos pacientes que eu tanto amava, inclusive os pacientes particulares, os quais se tornaram, juntamente com seus familiares, grandes amigos. Encerradas as despedidas, regadas sempre a muitas surpresas, carinho, choro e gratidão, embarquei, no dia 17 de março de 2018, para Santa Maria, desta vez, definitivamente. Hoje, converso com ele apenas através de advogados, e ainda não consegui meu divórcio, pois ele não aceita, então será realizado via judicial.

Não foi fácil, não é, não está sendo. A terapia, desde o primeiro dia, foi inevitável para aceitar tudo o que passei. Aquela mulher que foi para Florianópolis em busca de tantos sonhos, não foi a mesma que voltou, porém, a minha certeza, é que a mulher que voltou aprendeu muito com o amor, e principalmente com a dor, pois ambos nos ensinam e nos tornam fortes. Passados três meses do meu retorno, me sinto mais feliz, mais confiante, mais forte, mais determinada. Na época de casada, me sentia um lixo, hoje, me sinto linda, poderosa, refeita de tantas mágoas e de tanto sofrimento. A terapia constante, o amor do filho, da família e dos amigos, contribuíram imensamente para a aceitação do que eu não conseguia mais mudar. Se eu sinto saudades do que deixei para trás? Claro que sinto, contudo, a vida é feita de fases, de mudanças, de constantes desafios. Tudo muda, a todo o momento. Ninguém precisa passar pelo que não merece, nenhuma mulher precisa ser maltratada para se valorizar, e todas têm o direito de pertencerem a si mesmas. Se você conhece alguém que esteja passando por uma situação semelhante, acolha, esteja ao lado, e deixe claro que independente da escolha, você estará ali para apoiar, pois o relacionamento mais difícil de cortar, é o abusivo, o qual a vítima se sente refém do seu agressor, e muitas vezes, não o considera como tal. Cada um tem o seu tempo para perceber que merece uma segunda chance e que aquele relacionamento não faz bem para sua saúde física e emocional. Mas, mulher, se é você que está no meio deste tipo de relacionamento, caia fora. Sei que existem para muitas mulheres, incontáveis motivos que as impedem de seguir, como filhos, situação financeira, entre outros, porém, por experiência própria, eu lhes peço que tente, e lhes digo que existe vida após o rompimento. Existe uma vida linda, plena, feliz. Existem pessoas que nos valorizam pelo que somos, mas o primeiro passo é sempre o amor próprio. Não podemos amar alguém, se nós não nos amarmos em primeiro lugar.

Você minha amiga, você sempre! Se ame, se goste, se curta. Saia com suas amigas, vá ao salão de beleza, faça terapia (todas as pessoas deveriam fazer), faça um curso, aula de dança, pilates, vá para a academia, viaje, leia bons livros, pinte algo, mude o visual, escute as suas músicas preferidas, compre um sapato novo, uma roupa “bafônica”, faça um trabalho voluntário, durma até tarde, aprecie o pôr do sol, ufa…faça o que tiver vontade e suas condições permitirem, mas FAÇA, VIVA, e não deixe nenhum homem, em momento algum, ser o dono da sua vida. PERTENÇA A SI MESMA MULHER, VOCÊ É LINDA, POR DENTRO E POR FORA, E É MUITO AMADA, MAS ESSE AMOR, DEVE COMEÇAR POR VOCÊ.

Se agora eu pertenço a mim mesma novamente? Você tem alguma dúvida?

OBS: A foto acima foi tirada na praia mais linda de Santa Catarina, Praia de Palmas, em Governador Celso Ramos.

Quelen M. Bonini

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