Esta escrita pretende abordar o PROJETO DE LEI nº193 de 2016, conhecido como “Escola sem partido” que tramita no senado. Como professoras pesquisadoras que somos, resolvemos ler sobre o assunto, acessando o projeto de lei em sua integra, disponibilizado no site do Senado.

Assim, lendo sobre a tão falada ESCOLA SEM PARTIDO e chorando por dentro, com um misto de sentimentos que tentaremos elucidar.

Falamos do lugar onde ocupamos hoje: professoras de  escola pública municipal, ensino básico, dentro da nossa área de atuação (ou sobrevivência) Educação Infantil  e Ensino Fundamental. Falamos de dentro da escola, da sala de aula, de gestão democrática, de quem vive a educação todos os dias.

A primeira impressão que nos vem a mente ao terminar de ler é pensar que quem escreveu tal programa só pode ser alguém que não conhece/vive a sala de aula, alguém totalmente alheio a realidade escolar pública, e não só escolar, como alheio a realidade social do nosso país, alguém que vive em uma bolha privilegiada, uma exceção a regra ou algo do tipo.

“Em uma sala de aula, a palavra é do professor, e os estudantes estão condenados ao silêncio.” 

Quando isso? Onde?

Vocês olham televisão, tem acesso a internet e jornal e acompanham as notícias, sabem que a realidade não é assim. Nossa profissão vem sendo massacrada, os alunos faltam com respeito, agridem verbalmente e fisicamente. Somos tratados muitas vezes como figuras ilustrativas, carregamos a culpa de tudo. Se o aluno aprende o mérito é dele, se não aprende a culpa é da escola… e nesse sentido escreveríamos laudas de outros exemplos.

Não conseguimos acreditar que exista um programa que coloca os professores como perigosos, malvados e “vilões” da história e que possa estar ganhando tanta audiência e ser levado a sério.

Somos professoras concursadas há praticamente 10 anos. Mas, por amor a esta profissão estamos inseridas na escola pública desde muito antes e podemos afirmar em maiúsculo, negrito, itálico e sublinhado o seguinte

NUNCA VIMOS NENHUM PROFESSOR DEFENDER PARTIDO POLÍTICO EM SALA DE AULA.

Nem partido A e nem partido B. Partido nenhum.

Não somos doutrinadores, não somos do mal.

Muitos professores estão trabalhando com seus salários atrasados. Professores, mestres e doutores submetem-se a salários que não condizem com sua formação para estar na sala de aula e lutar  pelas crianças, pela educação, pelo futuro.

Nós somos heróis, não vilões!

Não caímos de paraquedas em uma sala de aula, nós nos formamos e qualificamos para isso. Não rotule, não generalize!

Fixar cartazes com nossos deveres na sala de aula?

Sério mesmo? Lemos diversas vezes para acreditar no que estávamos lendo. Tal prática além de ser um desrespeito com o professor manterá o Brasil no último lugar do racking de prestígio ao professor. Precisamos de políticas que nos protejam e que façam cumprir nossos direitos tão esquecidos.

Mas, quer saber, talvez essa ideia de fixar cartazes seja interessante. Fixemos cartazes no congresso e outros órgãos para que não esqueçam que estão ali por voto do povo e para defender o povo. Que estão ali para garantir os DIREITOS DOS PROFESSORES!

Ao terminar de ler o programa fomos envolvidas por grande tristeza. Mas ao começar a escrever, nossa tristeza transformou-se em força. Força para escrever o que pensamos e seguir lutando pela nossa profissão.

 

Leia o Art 5º do projeto:  

“O Professor respeitará o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções.”

Entende a seriedade disso?

Na escola ensinamos o respeito a todos, ensinamos a importância do combate ao bullying, a necessidade de respeitar o que não é seu, de não mexer no material do colega, de preservar a escola, patrimônios públicos, do sentimento de pertencimento e luta por direitos da sua comunidade.

Mas… muitas vezes… Há famílias que moralmente ensinam o contrário. Há famílias que ensinam em casa a rir do gordinho, a apelidar o baixinho, o negro e aquele que usa óculos. Há famílias que levam seus adolescentes para aprender a fazer negócios ilegais e roubar.

Embora tentemos, nossas concepções ideológicas e morais, pouco podem influenciar um aluno em quatro horas diárias na escola,  tenho certeza, mas outras vinte horas passa com a família, com certeza os influencia. Por que “vigiar”  o professor? Se alguma ideologia afeta de forma negativa uma criança, não é na escola.

E aí? De acordo com este programa ESCOLA SEM PARTIDO, teremos de ficar quietas e aceitar?

            Você entende nosso desespero? Está muito além de partidos políticos.

Revisitamos nosso PPP (Projeto Politico e Pedagógico), nossas diretrizes, planos de estudos, procuramos lá as ideologias e doutrinação… Construímos a partir de bases ideológicos partidárias? Creio que não…

A escola sem partido vai muito além, de uma escola sem partidos políticos, vai em desencontro da educação, vai em desencontro a toda a construção do conhecimento e desenvolvimento de uma criança.

 Não é contra  o professor, é contra o direito fundamental  da criança. Lembremos-nos do artigo principal da educação na Constituição Federal de 1988, artigo 205: “A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Artigo este, de Direito Social, parte integrante da Norma Fundamental, direito adquirido que não pode ser revogado.

Educação é dever em regime de colaboração, Estado e família, nenhum se sobrepõe ao outro.  O “Pleno desenvolvimento” que trata, com a Escola sem Partido, sem estimular  o aluno a refletir refletir, ser crítico, ou a tentativa de, não é pleno.

– Ah, mas o dever do professor é ensinar! – Dizem…

Sim. Concordamos, foi para isso que nos formamos. Mas não podemos fechar os olhos para aquela criança que chega desmaiando de fome e não alimentá-la primeiro. Não podemos nos omitir de ser luz e esperança para aquela criança que viu o pai sendo preso e já não vê perspectiva de vida. Entre tantas outras situações, que moralmente somos obrigadas a intervir, pois falta sim, a contrapartida desse regime de colaboração que é educar.

Pensamos em Políticas Públicas em Educação, políticas de Estado e não de governos, vamos falar e construir algo para a educação, comecemos com a valorização do professor…Cumpra-se a promessa em realmente investir para uma educação de qualidade, na estrutura adequada das escolas, na formação inicial e continuada de professores, em Políticas Sociais de efetiva e concreta mudança na vidas das pessoas, pessoas pobres, que dependem da escola pública. Desculpa, mas este projeto não é para o povo… Não para o nosso!

Quer colocar a família pra vigiar o professor? A coloque em efetiva colaboração na educação de uma criança! Participar das reuniões, conhecer o rendimento do seu filho, acompanhar pelo menos na porta da escola, saber o nome do professor,  revisar seu caderno, sua mochila, providenciar  um lápis, dar atenção, carinho. Caso contrário, sim nós estaremos, além de disseminar o saber e novos conhecimentos curriculares, doutrinando os alunos para a vida, para transformar sua realidade que hoje é precária, para refletir sobre nossa sociedade, se posicionar criticamente sobre política, religião e sobre o que mais eles nos trouxerem em déficit de casa.

            Finalizando, esclarecemos e deixamos o alerta: Obviamente somos contra a intervenção político partidária, embora, como já citado, nunca tenhamos visto acontecer na educação infantil e ensino fundamental, nosso campo de atuação e trabalho. Entretanto esse Projeto de Lei vem com esta “capa” mas em sua íntegra vai muito além. Fere nossos direitos, nossos princípios e todo entendimento e construção pedagógica feita até hoje. 

            Impossível só entrar na sala de aula mecanicamente, “transferir” conhecimentos e sair. Somos humanos, construímos relações, interagimos.

            Não somos (nem seremos) robôs doutrinadores do mau. Somos seres humanos lutando para a construção de um mundo melhor.

Analéia Maraschin da Costa

Luciéli da Conceição Leal

 

PROFESSORAS DA REDE MUNICIPAL DE SANTA MARIA

 

1 Comentário
  1. 大分県の物件を売るの心外な仕事とは。ちょっとしたつくり話を前説。大分県の物件を売るをどれだけの使うのか。言い分をひとしきりすむ。

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