Hoje vamos falar de Puerpério… Aquele período que engloba a chegada do bebê até mais ou menos 40-45 dias pós-parto e que chega trazendo um turbilhão de sentimentos.

Pois bem, em meu texto anterior contei como foi meu trabalho de parto, a hora em que acabei indo para cesárea e como foram meus primeiros momentos com Antônio. E o texto de hoje é para falar sobre como foi meu puerpério, a recuperação da cirurgia e como eu tive que lidar com a frustração de não ter tido o parto que idealizei.

Eu já lia e pesquisava muito sobre parto mesmo antes de engravidar, esperava ansiosamente pelo dia que eu poderia viver tudo aquilo que eu lia nos relatos, de trazer meu filho ao mundo pelo meu próprio esforço, como Deus criou, deixando a natureza da mulher agir, com o mínimo de interferências. Pois bem, eu me preparei bastante para o parto normal, psicologicamente e fisicamente, me preparei para passar pela dor e todo processo de trabalho de parto, estudei e revisei a fisiologia, fiz fisioterapia de preparação para o parto, também fiz curso de casais gestantes…mas no fim eu acabei na cesárea.

Chorei quando vi que esse seria o desfecho, mas aceitei após uma indução que não foi bem-sucedida e eu já estava exausta e sem esperanças de conseguir o parto normal. Naquela hora o que deixou mais triste foi não ter alguns dos meus desejos respeitados e isso influenciou muito os sentimentos do meu puerpério.

Hoje em dia existe a possibilidade da parturiente fazer um plano de parto, que é um documento onde consta tudo aquilo que ela deseja para o momento pré-parto, durante e após, o que ela  gostaria ou não que fosse realizado,  também o que deseja que seja feito em caso de cesárea, além dos cuidados com o recém-nascido. E eu tinha um plano de parto já discutido e assinado pela obstetra e pela pediatra, então eu tinha ficado tranquila. Só que no dia do nascimento a pediatra estava em outro hospital, não iria chegar a tempo e chamaram outro profissional que não tinha conhecimento do meu plano de parto e dos meus desejos.

Quando eu fui me preparar para ir para o centro cirúrgico, pedi que o William fosse pegar algumas coisas e o plano, só que a equipe de enfermagem não aceitou, porque disse que eles tinham o procedimento padrão. Na hora eu não entendi que isso tinha acontecido e só achei que meu marido não tinha achado, então fiquei lembrando a ele dos pedidos e quando o Antônio nasceu e foi levado para os procedimentos eu pedi que ele fosse junto e se certificasse que nossos desejos seriam respeitados.

Eu gostaria que caso estivesse tudo bem, meu filho pudesse vir direto para os meus braços para nos conhecermos, para ter contato pele a pele que ajuda no vínculo entre mãe e bebê, na descida do leite e na regulação da temperatura corporal do bebê, mas eu apenas o vi rapidamente e ele foi levado para fazer procedimentos que foram rápidos, logo ele retornou, mas depois já foi levado novamente, dessa forma não teve o contato pele a pele, não teve corte tardio de cordão umbilical e teve mais alguns procedimentos realizados no Antônio, que hoje em dia sabe-se que nem sempre são necessários, só que a nossa vontade não foi respeitada e foram realizados mesmo assim. Isso tudo me deixou muito triste e eu chorei bastante!

Era muito bom ter finalmente meu filho nos braços e com saúde, eu sou muito grata a isso, mas era muito triste também além de não ter conseguido o parto que sonhei, não ter tido minhas vontades respeitadas, não ter tido uma cesárea com práticas humanizadas porque o “procedimento padrão do hospital” NÃO PERMITIU, porque os profissionais estão tão acostumados com esses procedimentos que parecem apenas “entrar no automático” e continuam reproduzindo as mesmas coisas muitas e muitas vezes, sem deixar que os pais aproveitarem a preciosidade daquele momento único, que jamais voltará: os primeiros instantes de seu filho no mundo, o primeiro encontro, o reconhecimento. Para muitos profissionais pode ser apenas mais um nascimento, mais um dia comum de trabalho, mas para os pais é algo único, pois cada filho só nasce uma vez!

Quando eu voltei para casa foi um misto de sentimentos: alegria pelo meu filho e sua saúde e frustração pelo não parto e pelo desrespeito às minhas vontades. Além disso, eu ainda tinha que lidar não só com a dor emocional, como também com a dor física da recuperação de uma cirurgia de grande porte, que é a cesárea.

No chuveiro, era o momento que eu tinha mesmo que rapidamente só para mim, para olhar meu corpo e então eu não o reconhecia, já não era mais o corpo de antes da gestação, mas também não era o corpo de grávida, era um meio termo esquisito. Cada vez que eu tinha que lavar a minha cicatriz e que percebia não ter mais a mesma sensibilidade na região acima dela, eu ficava mais triste por lembrar que eu não havia conseguido o parto normal…nesse cenário eu tentava aceitar meu novo corpo, juntamente com tudo que havia acontecido, ao mesmo tempo que me perguntava por que não havia conseguido, era um conflito interno e secreto dia após dia, pois podia abrir para outras pessoas mas elas não entenderiam perfeitamente como me sentia.

E eu digo que elas não entenderiam, porque eu recebi comentários que não ajudaram muito nesse processo de aceitação, como:

“O importante é que seu filho está bem”

“Por que não foi para cesárea direto?”

“Eu achava que você não ia conseguir o parto normal”

Eu entendo que talvez as pessoas falassem esse tipo de coisa na intenção de me consolar e me fazer sentir melhor, mas a verdade é que esses comentários realmente não ajudaram em nada, às vezes até pioram! Eles só me deixaram mais frustrada ainda e eu estou dizendo isso para que as pessoas que vierem a ler o texto pensem bem antes de falar isso para uma recém-mãe, com hormônios à flor da pele!

As pessoas têm que começar a entender que o filho nascer bem e saudável é ótimo e maravilhoso, mas não diminui a frustração de não ter conseguido o parto ou outra coisa que tenha idealizado no nascimento do filho. Foi algo que idealizei muito, porque para mim o parto é uma oportunidade de a mulher ser protagonista do nascimento do próprio filho, daquele momento, de mostrar que o seu corpo e a sua natureza foram feitos para isso, é uma experiência maravilhosa para quem passa e eu esperava muito por isso.

Entretanto, nos dias atuais é muito difícil de conseguir apoio por parte dos profissionais e da sociedade também, pois vivemos uma epidemia de cesáreas. Onde a cesárea eletiva se tornou algo tão normal, que quem manifesta vontade de ter parto normal muitas vezes é vista como uma E.T. Foi assim que eu me sentia durante a gravidez, durante a internação quando eu respondia que estava lá para fazer indução e não cesárea e depois do nascimento do Antônio também, quando eu explicava que não havia conseguido.

Logo que tudo passou e essas coisas que eu não gostei aconteceram, ficou parecendo que tudo tinha dado errado no meu parto e aí eu ficava pensando “Do que eu irei me lembrar?”

Foi aí que começou uma luta interior e uma busca por força divina pra me ajudar a vencer esses sentimentos conflitantes e eu percebi que precisaria ressignificar o nascimento do meu filho, buscar coisas boas que tinham acontecido que acabaram sendo ofuscadas pelas ruins e então me apegar nelas para ter algo bom para lembrar! Eu percebi que deveria fazer isso ao postar meu relato de parto em um grupo do Facebook, onde uma mulher comentou citando todas as coisas boas que tinham acontecido e eu não estava percebendo por causa da frustração.

Eu ainda não esqueci totalmente as coisas ruins, às vezes elas vem na minha mente e me deixam tristes, mas nesses momentos eu sempre tento dar mais importância ao que aconteceu de bom que foi ter meu marido por perto em todo processo, me apoiando, estando comigo durante o trabalho de parto, segurando minha mão na hora da dor, ter tido o abraço de consolo dele quando eu sofri por ter que precisar ir para cesárea, ver meu filho pela primeira vez, chorar emocionada admirando ele, ter ele em meus braços, poder amamentar e a partir desse momento não ter sido mais separada dele. Eu fui para o quarto bem cansada, mas com ele nos meus braços e ficamos bem agarradinhos e dormimos juntos!

Graças a Deus, eu não tive problemas com amamentação, meu bebê pegou bem o peito, fez a pega correta e por isso não tive rachaduras, eu sentia apenas um pouco de dor no início da mamada porque ele sugava muito forte. O leite mesmo desceu no terceiro dia, meu seio não empedrou, pois eu fui ordenhando e dando o leite para ele depois. O Antônio era bem tranquilo para dormir, no início ele chegava a dormir direto algumas noites, então não sofri com privação de sono.

O mais difícil para mim mesmo era o cansaço da amamentação em livre demanda, que até pegar o ritmo foi bem cansativo mesmo, a dor nos músculos abdominais devido à cirurgia que limitavam vários movimentos no primeiro mês e a questão de ter que lidar com a frustração.

Hoje eu estou bem melhor, pois abri com pessoas que me entenderam e apoiaram e isso ajudou muito! Conversando com uma outra grávida eu expliquei da frustração e da dúvida se a indução havia sido feita corretamente ou não, que eu poderia ter sido enganada e ela me disse algo que ajudou muito, que resumidamente foi: “faz parte confiar que Jesus continua no controle né? Tu sendo enganada ou não, Ele não é enganado. Quando escolhemos o parto normal não temos como saber que vai ser, mas mais do que tudo precisamos aprender a confiar em Deus em todos os detalhes.” Quando ela me falou isso eu já estava mais conformada, mas isso acalmou ainda mais meu coração sabe, me ajudou a aceitar mais. Claro que já teve dias que eu desabei sozinha e teve um dia que eu resolvi desabar abrindo completamente pro meu marido e isso também ajudou, creio que tudo isso faz parte do processo de cura.

Eu entreguei minha vida a Deus há 11 anos, eu confio nele, sei que esse filho veio pela vontade Dele e sempre coloquei diante Dele em orações meu desejo pelo parto normal, por algum motivo que eu ainda não descobri e nem sei se vou, não foi possível e esse processo de aceitação tem sido uma experiência com o Senhor também. Mas creio que poderei lutar novamente pelo parto em gestações futuras.

Hoje eu entendo que passar por todo esse processo, foi como passar por um luto. Teve a tristeza, a não aceitação, mas depois veio a conformação e hoje eu falo disso com menos tristeza e mais naturalidade. Pois eu sei que apesar de ser muito importante o parto é só o início, depois dele vem muitos outros desafios. Também não quero que achem que sou a “louca do parto normal”, que é só isso que importa. A saúde da criança importante e independentemente da via de parto, a mãe é mãe, é forte, é corajosa! Eu apenas tenho minhas preferências…

Você pode estar lendo esse texto e achar um exagero todo esse meu sofrimento, ou achar que eu tive depressão pós-parto ou baby blues, mas não foi, foi apenas uma tristeza mesmo por ter idealizado demais algo que eu queria e que acabou não se cumprindo. Mas voltando ao puerpério, quero dar uma dica: seja empática, se coloque no lugar da recém-mãe, dê valor aos sentimentos dela, às suas tristezas, sua dificuldade em amamentar, sua privação de sono, seu cansaço, sua dor pós-parto e tantas outras coisas que acontecem nesse período. Ao invés de dar palpites furados ou criticar, elogie, ofereça ajuda! Nós como mulheres precisamos nos unir e ajudar umas às outras, porque compartilhar e receber a compreensão em um momento delicado desses faz diferença!

 

É isso aí, esse foi meu puerpério, espero que a minha experiência possa ajudar alguém! No próximo texto quero falar sobre as decisões e palpites na maternidade! Beijos

2 Comentários
  1. Luciana bezerra rosa 1 semana atrás

    Maravilhoso texto, não imaginava tudo isso, graças a Deus minha filha, vc soube sair dessa e tirar re letra. Que Deus esteja sempre no controle! Amo vc❤

  2. Elisa 1 semana atrás

    Fico feliz pq tenho certeza que hoje vc é uma mulher mais fortes, mais parecida com Cristo e que com certeza vai olhar pra outras mulheres com olhos diferentes! Para tudo há um propósito debaixo do céu, né?! O nosso Deus não muda e Ele é sempre bom! Que Jesus continue te conduzindo a essa cura completa e cheia de amor! Bjos querida 💕

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