Hoje é dia de falar da violência contra mulher! Só que vou tangenciar o tema… Eu já falei em um outro texto sobre o reflexo psicológico da violência nos filhos, eu vivi isso, tenho traumas que não sei se algum dia vou conseguir superar. E na semana passada uma amiga compartilhou uma charge, que me deu inspiração para o texto de hoje. Aparecia um menino, protegendo a mãe, e oferecendo o cofrinho para o pai voltar para o bar, acho que não precisa explicar, nem falar mais nada! Não vivi o alcoolismo dentro de casa, mas por muitas vezes tive vontade de impedir o que acontecia, e algumas vezes acabei sofrendo a violência junto.
É muito difícil lidar com sentimentos, principalmente quando esses sentimentos são conflitantes. Sabe quando o teu maior herói, te decepciona? Quando a pessoa que tu ama, que tu admira, passa a te dar medo! É assim que acontece quando o pai se torna violento. Tudo aquilo cai por terra, tu não sabe como reagir, tu tem raiva, dói, mas é teu pai, como odiar o pai? Ao mesmo tempo, existe afeto, existe gratidão, mas como lidar com o ressentimento? Além de toda a dor da violência, da humilhação. Existe a decepção, que é ainda mais difícil de lidar, e é o que muitas vezes faz com que a situação seja tão penosa, que a relação acabe se tornando um fardo. Quando terminamos com o namorado, ou nos divorciamos, por mais que seja doloroso, uma hora se supera, uma hora passa, seguimos em frente. Ex-namorado, ex-marido, fica no passado, as vezes a gente lembra, das coisas boas, das ruins, mas é éx! Só que não existe ex-pai, esse é o mesmo, para o resto da vida, ele estava lá quando nascemos, quando falamos a primeira vez, quando aprendemos a caminhar, foram tantos momentos lindos. Pai é o nosso primeiro herói, aquele em que depositamos confiança, e muitos sonhos, e como fica, quando ele mostra que não é o herói, que na verdade está bem longe disso???
‘Mas pai é pai’ quantas vezes escutei isso… Eu sei, nunca vai deixar de ser, só que existem pais e pais. Acredito em amor paternal, e também acredito que pais são seres humanos que tem o direito de errar. Mas alguns, talvez por despreparo, falta de maturidade, ou seja lá o que for, acabam falhando nessa tarefa, e criando adultos ressentidos, assim como eu. Esquecem da importância da sua figura para a formação dos filhos, e de que as atitudes, os exemplos, contam muito mais do que qualquer coisa que seja dita. Questionam a falta de afeto, dos filhos formados, mas não admite o quanto foram falhos, o quanto tiveram atitudes monstruosas que só os afastaram.
Quando resolvi falar da violência contra mulher, eu queria jogar no ventilador, queria gritar aos quatro ventos, como se falando, gritando, eu pudesse limpar o que carrego aqui dentro. Eu sigo querendo gritar, mas agora sei que o que tem aqui dentro, vai ficar, não vai ser limpo, faz parte de mim, o que pode mudar é a minha forma de ver, e reviver tudo isso, e o que posso fazer com essas memórias. Depois que eu percebi que o que está aqui é meu, de mais ninguém, eu enxerguei que não posso esquecer, muito menos mudar, o que aconteceu, aconteceu, está lá, que eu posso de vez em quando pegar e revirar, assim como se pega aquela antiga caixa de fotos. Mas e fazer o que com tudo isso? Por enquanto sigo revirando a caixa, tentando juntar as peças, e entender. Eu não culpo meu passado, não que já tenha não culpado, mas hoje consigo enxergar com um pouco menos de dor, e consigo ver que além das feridas, ficou muita força, muito determinação, e vontade de ajudar quem sofre o que sofri. Vou continuar revirando a caixa, guardar ela no fundo do armário não vai resolver, já tentei, só que vez ou outra eu esbarrava nela, e a dor, sufocada, doía muito mais.
Tem dias que me perco em magoas, lembranças que estavam lá no fundinho voltam a me assombrar, meu coração aperta, todas as feridas voltam a doer. Me sinto injustiçada, questiono Deus por eu tão pequena, ter que viver com tudo isso. Tenho pena de mim mesma! Da vontade de dizer para as pessoa, olha o que eu passei, de me justificar, com o meu passado! Como se as pessoas precisassem relevar certas atitudes, ‘porque a pobrezinha…’ Depois a auto piedade passa, enxugo as lágrimas, e penso, ingrata! Não reclama, não te lamenta. Tu viveu, melhor, sobreviveu! Hoje tenho uma vida boa, sou uma pessoa de bem, casada e feliz, quantas vítimas da violência não tem essa oportunidade, quantas crianças se perdem na vida, nas drogas, no crime, ou tantas outras coisas ruins. Eu superei! Fui mais que tudo o que sofri, e hoje posso usar tudo o que vivi, de forma produtiva, ajudar outras pessoas.
Escuto muito: – ‘Mas se te faz mal, por que não esquecer? Deixa lá no passado.’ Simples, não consigo! Quando as memórias vem, e percebo, que estou focando nisso, procuro desviar o pensamento, mas não é tão fácil assim. Conheço pessoa que lidam muito bem, esquecem. Então já que meu passado, teima em assombrar meu presente, vou soltar os fantasmas, não que eu queira transferir minha dor, ou perturbar os outros, quero evitar que outras pessoas venham a ter os mesmos traumas que eu, fazer da minha dor, a minha luta! Levantar a bandeira, e mostrar que enquanto eu estou aqui escrevendo, muitas mulheres estão apanhando, sendo humilhadas, menosprezadas, ou morrendo… E que muitas crianças, os futuros, pais e mães, estão assistindo, e que o ciclo se renova.
Perdoar não é esquecer, e um vaso depois de quebrado, por mais que seja colado, não volta a ser belo, tu pode juntar os caquinhos, organizar, colar com muito amor, mas as rachaduras estão ali. É difícil voltar a ter confiança em alguém que um dia não soube cuidar de tanto amor. Não que, eu não quisesse, já tentei, acredito que todo mundo tem seu tempo, e que não se sabe o dia de amanhã. Sigo revirando a minha caixa, quem sabe quando eu tiver visto tudo, quando eu dividir tudo, quem sabe eu entenda o que ainda me impede de definitivamente tocar a bola para frente. Esse texto é um desabafo, escrito com muitas lágrimas. Mas escrevendo eu me liberto, dividindo, eu sinto que é mais fácil superar, e posso dizer para outras mulheres, estamos juntas! Vamos conseguir juntas! Antes eu sofria, agora eu escrevo…
Bom mulherada linda, até a próxima quinta! Vou contar como vim parar no Coração do Rio Grande… Beijos!

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