Depois de algum tempo, 7 meses pra ser exata, eu decidi que viver da melhor forma é a maneira mais bonita de seguir a vida, falar sobre o que me aflige, deixar que vejam minhas lágrimas e alegrias, mostrar ao mundo que é possível seguir em frente. Não podemos viver um luto para sempre, não podemos colocar nossa vida em risco por não saber como lidar com as situações adversas. Não podemos deixar que nossa vida futura não brilhe devido às nuvens dos dias passados. Precisamos ser sol, por onde passar!

Ainda sou questionada sobre as bebês: onde estão? Como estão? As respostas variam entre o “estão bem”, “esta é uma pergunta difícil” e o “não soube?”, por vezes fica mais fácil do que explicar ou mencionar a perda.
Ler tem sido uma opção maravilhosa para seguir em um caminho melhor, um caminho de luz infinda que só este luto poderia me proporcionar, mesmo que sem ser o que eu desejava. Quando fecho os olhos ainda sinto alguns chutes dentro de mim me avisando de que nada adianta sofrer, de que preciso acordar e viver. São chutes pra vida, chutes de um estômago que sofre e suporta tudo, mas que implora por dias melhores. São borboletas pedindo pra voar!

Isabel e Cecília conduziram-me com dignidade e certeza de ter feito tudo da melhor e mais correta forma para chegar até aqui, tudo o que vivi depois do dia 16 de março é em função delas e de mim mesma, por elas. Elas me introduziram uma gama de ensinamentos, era, e foi, o meu momento de amadurecer e eu decidi agarrar esta oportunidade com unhas e dentes, tornei-me melhor do que qualquer versão minha que eu já pude imaginar. …A dúvida, o medo, a impotência e a tristeza são minhas constantes companheiras, é impossível que não seja. Nunca na vida eu senti tanta solidão, por mais que estivesse cercada pela família e amigos. Esta é uma situação solitária, um momento que pertencia somente às minhas filhas e a mim. Foi um momento difícil, uma angústia tão cruel, que eu tinha a impressão de que nem a mão de Deus conseguiria me alcançar. Eu conversava muito com elas, dava carinho, dizia que eram amadas e queridas por todos, e realmente eram. A alegria vinha estampada em todos os rostos que nos rodeavam, qualquer mal ou desejo contrário que fosse, passava despercebido diante de tantos sorrisos sinceros que nos esperavam em cada esquina. Elas eram muito receptivas, mexiam-se bastante e adoravam a hora das refeições (igual a mãe, haha). Antes de dormir avisavam que a festa estava apenas começando e viravam noites dançando (igual a mãe também). As semanas avançavam e a expectativa me dominava. É muito difícil controlar a ansiedade com uma barriga que cresce diariamente e parecia rasgar a pele. Crescia no meu coração a esperança de conhecê-las, a vontade de dar um futuro lindo e cheio de amor e cavalos para as minhas pequenas. Elas estavam lutando dentro de mim, todos os dias.

No dia 14 de março fui àquela sala de ultrassom mais feliz do que nunca, era dia do morfológico e eu estava louca para saber cada detalhe sobre elas. Ia da esperança de ter além de notícias concretas, informações preciosas sobre cada pedacinho de seus minúsculos corpinhos. Foi um dia de choque!

A descrição deste dia resume-se me lágrimas, correria, contra o tempo e uma mãe buscando a melhor forma de salvar suas filhas. No dia seguinte embarquei às 5 da manhã para o Rio de Janeiro, lá os planos eram de tudo dar certo, e deu. O procedimento de cauterização dos vasos sanguíneos que as ligavam deu 100% certo, mas quis o destino que fosse minha hora. No ato da internação recebi uma camisola e, quando me despi, não contive o choro segurei firme a mão da minha melhor amiga que lá estava no lugar da minha mãe enquanto ela não chegava e disse que faria todo o possível, desabei sentada na sala de cirurgia observando a correria de todos a fim de nos ajudar. Era impossível ver todas aquelas pessoas correndo e não pensar no pior. Até que tudo passou, deu certo e um sorriso pairou sobre meu rosto. Estava eu, mais uma vez vibrando a vida das minhas pequenas e a minha. Abri os olhos e vi minha mãe, tão preocupada quanto eu. Sorrimos!

Doze horas mais tarde a jornada terrena das minhas pequenas havia se encerrado. Os médicos tiveram todo um cuidado comigo; não queriam me submeter a uma dor maior do que a que eu já estava passando. Agora era e ainda é apenas uma recuperação lenta, dolorosa e talvez traumática. Foram quase 24 horas naquela sala de cirurgia. Eles também tentaram salvá-las, até o último minuto. Pari com uma força que só poderia vir de Deus, tão rápido e tão fácil. Uma hora depois, elas estavam em meus braços. Elas mediam pouco e pesavam um pouco mais de meio quilo cada uma. O parto foi tranquilo, sem episiotomia; não tive laceração, nem levei pontos. Ficamos juntas por meia hora. Com elas no colo, eu fiz uma prece, conversei, declarei meu amor, acariciei o corpinho e os cabelos e chorei. Aquele era o nosso momento. Eu senti uma paz enorme me invadir e naquele instante, eu pensei: “Fiz o que pude”, mesmo não sendo o que eu queria, ou como eu queria que terminasse.

A gravidez mexeu comigo. Elas com certeza foram anjos que Deus enviou para me fazer enxergar coisas que estavam ofuscadas. Isabel e Cecília me fizeram viver novamente, elas me salvaram e me transformaram em gente. Deus me deu um presente e eu devolvi a Ele. No início da gestação, eu achava que tinha muito a ensinar a elas, mas descobri que a aprendiz era eu. Elas me ensinaram, em aproximadamente 5 meses, coisas que eu levaria uma vida inteira para aprender. Foram dias de amor, ensinamentos e paciência. Elas me amaram e eu as amei mais do que tudo. Elas me ensinaram a ter fé, a confiar em Deus e depender Dele. Elas me mostraram que na vida as coisas nem sempre são como desejamos, que o mundo vai se adequando para que as maravilhas aconteçam, mostraram que tudo se encaixa e faz sentido, que cada escada da vida tem uma função mais a diante e não é por acaso. Se me fosse dada uma oportunidade de voltar atrás, eu voltaria e faria tudo outra vez. Elas são sem dúvida as melhores pessoas e mais lindas que já conheci. Agradeço a Deus por ter tido a oportunidade de conviver com seus anjos. Elas abençoaram meu ventre e nunca mais serei a mesma. Os laços que nos unem nunca se romperão e minha existência será plena de felicidade, pois de onde elas estiverem estarão zelando pela minha vida. A saudade é enorme, mas o amor é muito maior.

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